Relatórios
Dia Mundial do Não Fumador 2005
25/05/2005
Classe médica é determinante no combate ao tabaco na Europa
O Dia Mundial Sem Tabaco – 31 de Maio - realça em 2005 o papel determinante que a classe médica pode desempenhar no controlo do tabagismo.
A União Europeia, através da acção legislativa, do apoio a diversos projectos e do intercâmbio de boas práticas, promove o papel activo que os profissionais da saúde deverão ter no controlo do tabaco e no incentivo ao abandono do vício de fumar.
É neste âmbito que a nova campanha de prevenção do tabagismo ‘HELP – Por uma vida sem tabaco’, surge associada ao Dia Mundial Sem Tabaco 2005, dia em que serão apresentados pela primeira vez nos 25 Estados-membros os anúncios televisivos desta campanha.


Tabaco pode tornar-se a principal causa de morte
Actualmente, há cerca de 1,3 biliões de fumadores em todo o mundo, e todos os anos morrem quase 5 milhões de pessoas devido ao tabaco. Estima-se que metade dos fumadores vão morrer por doenças derivadas do consumo do tabaco.
O Banco Mundial prevê que em 2030 o hábito de fumar mate um em cada seis adultos por ano. Quase 70% dessas mortes irão ocorrer nos países desenvolvidos, o que coloca sérias preocupações à União Europeia e torna o tabaco num dos seus maiores problemas de saúde. Não é possível ignorar que é a segunda maior causa de morte e prevê-se que se torne mesmo na principal causa de morte em todo o mundo.
Governos e legisladores têm, assim, o dever de tentar prevenir estas mortes. Mas também a sociedade tem de se envolver no problema do consumo do tabaco, que é comum a todos, tendo os profissionais da saúde um papel proeminente a desempenhar nesta matéria.

O papel dos profissionais de saúde
Uma vez que possuem a confiança da população e dos meios de comunicação social, chegando aos variados estratos sociais, económicos e políticos, e estando em contacto com uma altíssima percentagem da população, os profissionais de saúde têm todas as condições para mudar comportamentos no que respeita ao hábito de fumar. Estão na posição ideal para responder a questões acerca das consequências de fumar, ajudando os pacientes a pôr um travão neste vício, alertando ainda crianças e adolescentes para os malefícios do tabaco.
Estudos realizados nesta área mostram que os conselhos fornecidos por médicos e outros profissionais da saúde sobre os perigos do tabaco constituem um dos métodos mais eficazes para reduzir o número de fumadores.A nível individual, os profissionais da saúde podem educar as populações para os malefícios do tabaco e para formas de superar o vício de fumar. Neste sentido, têm sido publicados manuais dirigidos a médicos e enfermeiros que os incentivam a adoptar uma atitude pró-activa.
A nível comunitário, podem promover locais de trabalho onde seja interdito fumar, tal como canalizar todos os recursos disponíveis para ajudar as pessoas que desejem parar de fumar.
A nível social, podem juntar a sua voz e o seu peso aos esforços nacionais e globais de controlo do tabaco, influenciando a execução de medidas e de legislação anti-tabagista, e promovendo iniciativas tais como o Dia Mundial do Não Fumador e a WHO Framework Convention on Tobacco Control (WHO FCTC).
Recentemente foi lançada uma petição europeia por profissionais de saúde, que solicitam o acesso livre a centros anti-tabagismo para todos os aspirantes a não fumadores, a total protecção dos não fumadores contra o fumo do tabaco, e a implementação da WHO - rede de convenções de controlo do tabaco.
De um modo geral, os profissionais de saúde deverão agir como promotores de uma sociedade mais saudável. Neste contexto, as organizações de médicos podem assumir a liderança, tornando-se modelos para outras organizações profissionais e para a própria sociedade.

Comparação europeia
Um gesto que seria também um bom exemplo é a proibição da venda de tabaco em locais relacionados com a saúde. Um número considerável de países da União Europeia, como a Polónia, Grécia, Espanha e Estónia já proibiram a venda e a promoção de tabaco naquelas instituições.
A Rede Internacional de Promoção de Saúde Hospitalar e a Rede Europeia de Hospitais Livres de Fumo, que operam na maioria dos Estados-membros, têm desenvolvido acções no sentido de fomentar serviços de saúde anti-tabaco, através do incentivo à criação de unidades de apoio a todos aqueles que desejam parar de fumar, e do encorajamento aos próprios médicos para que sigam este exemplo.
Os profissionais de saúde de Malta verificaram que a introdução de legislação sobre locais onde é proibido fumar ajudou a aumentar o número de pessoas que pararam de o fazer. Este facto incentivou outros países a implementar ou a planearem a curto prazo medidas de proibição de fumar nos locais de trabalho, transportes públicos e espaços públicos.
Países como Malta ou Suécia têm organizações anti-tabagismo formadas por profissionais de saúde que incluem médicos, dentistas, enfermeiros, professores, farmacêuticos e psicólogos.
Uma dessas organizações estabeleceu, em conjunto com o Ministério da Saúde de Malta, um sistema de apoio a quem pretende deixar de fumar, para que tenham acesso a clínicas de controlo do tabagismo.
Na Suécia, grupos como as Enfermeiras Europeias Contra o Tabaco e os Profissionais de Saúde Contra o Tabaco, têm colocado o tema do controlo do tabaco nas agendas de políticos, líderes de opinião e profissionais do desenvolvimento.
Estas instituições incentivam igualmente a classe médica a adoptar fortes políticas de prevenção do tabagismo e a darem o apoio necessário aos pacientes ao longo do processo moroso e difícil de deixar de fumar.
Mais de dois terços dos dentistas na Suécia e na Finlândia chegaram à conclusão que é seu dever encorajar os pacientes a pôr o tabaco de lado.
No Reino Unido, o NHS lançou o Stop Smoking Service, que fornece conselhos e apoio a todos os fumadores que queiram deixar de o ser.

Formação de profissionais de saúde
A classe médica necessita de uma actualização constante de conhecimentos, para que consiga manter a competência requerida nestas matérias. A formação contínua pós-licenciatura um requisito essencial para o aconselhamento anti-tabaco. No entanto, esta formação varia consoante o país.
Na Estónia, onde os médicos são treinados para aconselhar os fumadores, o objectivo para o final de 2005 é ter pelo menos um centro de aconselhamento com profissionais qualificados em cada uma das 15 províncias.
Outro exemplo de sucesso é a Lituânia, onde todos os estudantes da principal universidade de medicina recebem informação sobre a prevenção do tabagismo.
A Alemanha também já compreendeu a importância do aumento das competências dos profissionais de saúde para o tratamento eficaz do vício do tabaco.
A educação e sensibilização de crianças, adolescentes e jovens adultos é considerada uma política anti-tabaco vital, na qual a classe médica tem um papel determinante a desempenhar. Países como a Grécia têm prestado uma atenção redobrada a este grupo profissional. Os médicos gregos informam as crianças sobre a natureza aditiva do tabaco e os malefícios na saúde que ele pode provocar.
Na Suécia, Espanha e Eslováquia, os profissionais da saúde têm trabalhado com escolas, no sentido de incutir às camadas mais jovens da população medidas de controlo do tabaco e de promoção de uma vida saudável, muito embora na Espanha e Eslováquia esta prática seja ainda inconsistente e focalizada em algumas regiões.
No Chipre, foram lançadas campanhas públicas anti-tabaco orientadas para jovens e mulheres grávidas, enquanto na Estónia o Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Saúde implementou um programa inovador dirigido às escolas nacionais.

Aumentar o preço do tabaco ajuda a deixar de fumar
Apesar das medidas pró-activas levadas a cabo em muitos países da União Europeia que visam travar o consumo do tabaco, em algumas destas nações dois dos principais obstáculos ao sucesso das políticas anti-tabaco são financeiros. Um deles é o valor do imposto sobre o tabaco, outro é o custo do tratamento e acompanhamento dos indivíduos que decidem parar de fumar.
A Organização Mundial de Saúde e o Banco Mundial estimam que um aumento de 10% no preço do tabaco motivaria cerca de 42 milhões de pessoas em todo o mundo a deixar de fumar.
Os impostos sobre o tabaco cobrados nos diferentes países da União Europeia provocam uma diferença de preços significativa nesses mesmos países. Os cigarros comprados no Luxemburgo, por exemplo, são até três vezes mais baratos do que os comprados no Reino Unido. Como consequência desta divergência de preços, numerosos fumadores dos países circundantes são atraídos ao Luxemburgo com o intuito de comprar tabaco.

Em França, o aumento do preço do tabaco nos últimos anos levou a que muitos fumadores tomassem a decisão de deixar de fumar.
A classe médica poderá no futuro usar a sua influência sobre políticos e governantes para que estes aumentem os impostos sobre o tabaco, uma vez que esta medida poderá revelar-se fulcral na luta anti-tabaco.

Tratamentos caros
O custo elevado dos tratamentos anti-tabaco pode ser um grande obstáculo à multiplicação deste tipo de terapias. Uma grande percentagem da população que fuma tem poucos recursos, razão pela qual os tratamentos anti-tabaco deveriam ter preços mais acessíveis, que possibilitassem um acesso generalizado.
Actualmente, não há consenso nos países europeus em relação ao custo destes tratamentos. Em Malta, por exemplo, o acesso às clínicas anti-tabaco é gratuito, o que encoraja a adesão dos fumadores a este tipo de tratamento.
No Reino Unido, o NHS providencia ajuda àqueles que desejam parar de fumar, incluindo terapia à base de nicotina, disponível sob receita médica e gratuita para os mais idosos e para pessoas com menos recursos.Já noutros países, como a Alemanha e a Eslováquia, a ajuda farmacológica não é grátis. Como consequência, na Alemanha apenas 25% dos médicos perguntam aos pacientes se são fumadores, e menos de 5% os aconselham a deixar de fumar.
Esta situação tem sido igualmente atribuída à falta de apoio à classe médica, e à escassez de tempo e recursos de outros profissionais. A falta de recursos é apontada como o principal problema dos programas de combate à adição de nicotina na Eslováquia, apesar das altas taxa de sucesso naquele país.
Os níveis de reincidência dos fumadores são também elevados devido à falta de apoio e aconselhamento psicológico aos que se encontram no difícil processo de deixar de fumar.

Conclusão

A classe médica desempenha um papel fundamental na redução no controlo do tabaco. A acção das organizações de profissionais de saúde tem um impacto positivo nas decisões políticas e nos líderes de opinião, sendo que estas instituições asseguram a educação e formação contínua da própria classe. Contudo, elas não conseguem operar eficazmente sem o apoio dos Estados-membros.
Para aumentar a eficácia das políticas anti-tabaco, os próprios médicos deverão ser encorajados a deixar de fumar e a empreender esforços ininterruptos no sentido de influenciar a opinião pública a recorrer à ajuda profissional para travar o consumo de tabaco.
É igualmente importante que a classe médica empreenda esforços junto de entidades nacionais e internacionais para criar novas iniciativas anti-tabaco.


Mais informações sobre a nova campanha da União Europeia anti-tabaco “HELP – Por uma vida sem tabaco” e sobre as actividades da UE no campo do controlo do tabaco podem ser encontradas no website
http://europa.eu.int/comm/health/.../tobacco_en.htm


Fontes:

Economics of Tobacco Control: Curbing the Epidemic: Governments and the Economics of Tobacco Control. World Bank
Development in Practice Series, 1999, Washington DC
Sarajevo. Doctors must stub out smoking. StudentBMJ 2004; 12: 89-132
Raw et al., Thorax 1998; 53 (suppl 5): S1-S18 and BMJ 1999; 318
Health Promotion Department, Malta, 15 November 2004.
Allard, RHB. Tobacco and Oral Health Opinions of EU-dentists. A 1998 survey. Presentation at the 3rd meeting of the EU
Working Group on Tobacco and Oral Health, Dublin, May 1999.
http://www.who.int/inf-pr-2000/en/pr2000-53.html
Montes and Villalbí. The price of cigarettes in the European Union. Tobacco Control 2001; 10: 135-136

Notas:
- Esta informação foi compilada com base nos conhecimentos de membros da Rede Europeia de Prevenção do Tabagismo, em Abril de 2005. (European Network for Smoking Prevention)
- “Os pontos de vista expressos nunca poderão ser entendidos como a afirmação de uma posição oficial da Comissão Europeia”.
- Contactos e fontes são parte do corpo do texto.
- Como parte da nova campanha de prevenção do tabagismo “HELP – Por uma vida sem tabaco”, lançada pela Comissão Europeia, outras informações serão regularmente enviadas, fornecendo aos meios de comunicação social matéria relevante relacionada com a saúde.

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